quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

UM POUCO DE INQUISIÇÃO

A Santa Histeria (parte 5) | Imprimir |

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Fosse qual fosse a psicopatia que dominava Sprenger e Kraemer, ela era contagiosa. Logo, havia uma tensão dominante em todas as vilas e cidades onde apareciam os inquisidores. Qualquer pessoa podia ser acusada de bruxaria. Mulheres de má aparência, mulheres lindíssimas, velhas solitárias, damas da sociedade, pais de família, trabalhadores braçais, vizinhos indesejáveis, ex-esposas, protestantes, ciganos, judeus, muçulmanos, padres, monges, freiras, nobres, plebeus, comerciantes, prostitutas.

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A chegada dos inquisidores era espetacular. Grandes caravanas adentravam nas cidades precedidas por um verdadeiro exército de Gladius Dei, soldados que formavam o braço armado da inquisição; em seguida vinham os scholars, que eram estudiosos de bruxaria e, comumente, tinham o Malleus na ponta da língua; depois vinham os discípulos de São Cipriano, homens que, curiosamente, aprendiam todos os feitiços com as bruxas e podiam usá-los sem sofrer qualquer represália; por fim, chegavam os membros do Sagrado Tribunal do Santo Ofício, os inquisidores, que detinham o poder de julgar e condenar qualquer suspeito de bruxaria. Atrás deles, vinham todos os parasitas da igreja, uma turba de trabalhadores braçais, concubinas e serviçais pessoais. Entre eles, vinham as piras, conduzidas por uma legião de escravos, imensas carroças com uma estaca central já queimada pelo excesso de uso e correntes enegrecidas por julgamentos anteriores. A visão da pira fazia estremecer até as mais nobres almas.

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Uma vez instalados, os inquisidores tomavam as praças da cidade para fazer seu pronunciamento. Não comparecer era considerado suspeito e todos acorriam à praça, temerosos de suas vidas. Os inquisidores então diziam que naquele povoado havia indícios de bruxaria e que aqueles que denunciassem as bruxas locais receberiam indulgência da igreja. O processo de denúncia era, na maior parte das vezes, anônimo. E qualquer vítima de denúncia era considerada imediatamente como bruxa.

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Não havia apelação.

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O processo da inquisição era dos mais cruéis. O acusado era levado diante dos juízes sem qualquer chance de defesa. Uma vida religiosa intensa, a devoção a Igreja, benfeitorias e nobreza, nada era válido diante das acusações. Quando presos, eram imediatamente submetidos às mais variadas formas de tortura para obter uma confissão. As provas ordálicas, que podiam inocentar os acusados, eram cruéis, se não sádicas. Mas todos os acusados tinham direito a elas.

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Os que escolhiam a água, eram amarrados em grandes cruzes de madeira e jogados em lagos com a cabeça para baixo. Se morressem, eram considerados inocentes, mas se sobrevivessem, era sinal que o demônio os protegia e eram imediatamente levados à fogueira. Os que escolhiam o fogo tinham que segurar ferros em brasa ou mergulhar as mãos em óleo fervente por quanto tempo julgasse necessário o inquisidor, então ficavam três dias com as mãos envoltas em ataduras. Se quando as ataduras fossem retiradas as mãos estivessem lisas e impecáveis, deus os havia protegido e eram então libertados (!). Quando os acusados morriam durante as provas eram considerados inocentes e podiam ser enterrados em solo sagrado. No entanto, todos os seus bens eram confiscados e vendidos em leilão para a manutenção do Santo Ofício e seus órfãos eram entregues aos padres locais para transformá-los em padres ou escravos.

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A pesquisadora Cristine Vieira Vilarino, em seu livro ‘Malleus – Os Instrumentos de Tortura da Santa Inquisição’ faz um compêndio das ferramentas usadas pelos inquisidores nas câmaras de tortura, onde arrancavam as confissões dos acusados, ou nas praças públicas, onde sofriam a pena. Entre os mais cruéis instrumentos de execução, destacam-se as Gaiolas Suspensas, a Roda para Despedaçar, a Submersão em Azeite, A Serra, a Mesa de Evisceração. Entre os de tortura sobressaem-se o sarcófago de ferro, a gaiola de cravos, o cavalo de estiramento, o berço de Judas, o Esmagador de Polegares, o Quebrador de Joelhos, as Garras de Gato, a Pêra Retal ou Vaginal.

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Acreditando que todos os instrumentos dispensem descrições detalhadas, falaremos apenas do último, a título de esclarecimento.

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O instrumento, feito de ferro e em formato de pêra (daí seu nome), era introduzido no reto ou na vagina da vítima e ali era aberto através de um parafuso até que atingisse sua abertura total, que podia chegar a três vezes seu tamanho original, o que causava estragos nos tecidos internos, hemorragias e infecções que, invariavelmente, levavam à morte. Era usada para torturar prostitutas, adúlteras e homossexuais.

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O especialista em religião Michael Baigent em seu livro ‘A Inquisição’, situa o Malleus como um manual de crueldades do tipo ‘Faça Você Mesmo’ e usa das seguintes palavras para defini-lo: “Na verdade, constitui um compêndio de psicopatologia sexual, e é uma esclarecedora ilustração de fantasia patológica em exuberante desvario”. O Malleus fala em súcubos e incubus, sêmen e menstruação, gravidez, traição, sexo, órgãos sexuais, amantes, sedução. Ainda assim, era leitura obrigatória entre magistrados, juízes, bispos, cardeais e autoridades em geral. E engana-se quem pensa que apenas os católicos faziam uso dele. Seguidores da Reforma Protestante, que acontecia em meados de 1517, também passaram a utilizá-lo na acusação dos hereges. Um dos argumentos mais usados era que a própria bíblia incitava os cristãos a lutarem contra os “principados e potestades, contra os dominadores desse mundo tenebroso”. Na apresentação do livro, Sprenger e Kraemer afirmam que a crença nas bruxas é tão essencial que “manter obstinadamente a opinião oposta tem sabor manifesto de heresia”.

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Outro ingrediente fundamental para a explosão da Inquisição era o confisco de bens e propriedades. Se tudo que o acusado possuía era revertido à igreja após seu ‘assassinato’, por quê enriquecer as custas de propriedades pobres e bens de baixo valor? Já nas primeiras décadas do século 16, as caravanas dos inquisidores eram cercadas de pompa e soberba. Milagrosamente, apareciam cada vez mais bruxas entre o clero e a nobreza. Reis, dignatários e senhores feudais eram acusados e suas posses eram revertidas à causa. Castelos, vilas, ouro e jóias eram, assim, tomados e vendidos pelos inquisidores, que muitas vezes banqueteavam-se na mesa dos condenados, bebiam seu vinho e vestiam suas roupas mais finas, enquanto estes ardiam na fogueira. Havia tantos casos de descendentes nobres morrendo que fome que a igreja, em 1561, viu-se obrigada a mudar algumas regras, permitindo o sustento de filhos dos condenados com o dinheiro amealhado pela venda das propriedades.

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Michael Baigent conta que, no México, a Inquisição se ocupou em gerar riqueza para a igreja, administrando os bens e propriedades confiscados. “Não raro, fabricava acusações contra indivíduos com o único objetivo de obter seus bens e propriedades que jamais eram devolvidos, mesmo sendo o acusado inocentado”.

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