sábado, 30 de agosto de 2008

Parte da minha vida no Garimpo do Invernadinha em Jataí Goiás

jcar Sábado, 30 de Agosto de 2008 Parte da minha vida no Garimpo do Invernadinha em Jataí Goiás Eu tinha mais ou menos dezesseis anos, morava na fazenda da Barra, do s.r. Vavá, essa fazenda ficava no município de São Joaquim da Barra quase divisa com Ipuã a fazenda tinha como limite o rio Sapucaí e era cortada pelo córrego da barra. Meu pai era o administrador da fazenda onde tinha muitos trabalhadores, incluindo meeiros. Como as tarefas do dia a dia era muito cansativa meu pai era sempre um homem rude com a família e principalmente comigo que era o filho mais velho. Eu tinha minhas obrigações para serem feitas e ainda estudava no ginásio de Ipuã. Não era nada fácil, e, num determinado dia eu disse para o meu pai que não podia levar o leite pra cidade porque tinha prova na escola e eu estava ficando atrasado. Nisso chegou um vizinho em casa e entrou para tomar um café quando meu pai disse a ele: se essa desgraça não endireitar eu mato ele para não envergonhar o nome da família, se referindo a mim. Peguei minha bicicleta e o material escolar e saí em direção à escola com mil pensamentos. Ao chegar à casa de uma tia deixei a bicicleta e o material escolar foi guardado atrás de um armário, saí e fui no armazém que meu pai comprava a crédito, então eu disse ao proprietário que precisava de uma pequena quantia em dinheiro emprestado que era para comprar um livro que nessa venda não tinha. Com o dinheiro na mão fui até o lugar que o ônibus saía para a vizinha cidade de Guaíra. Chegando a Guaíra fiquei sabendo que um senhor de determinada fazenda estava aliciando trabalhadores para levar para Cáceres em Mato Grosso. Mais que depressa me juntei a essa comitiva e partimos rumo ao Mato Grosso cuja viagem deveria durar uma semana. Logo no primeiro dia de viagem o dono do caminhão e proprietário das terras em Mato Grosso foi acometido de diverticulite e faleceu na cidade da prata MG, a viúva resolveu seguir viagem. Percurso difícil de fazer, pois as estradas de terra esburacadas e com lugares quase intransponíveis. Chegamos enfim na Gleba Jauru onde iniciamos o trabalho combinado que era o desmatamento para o plantio de café. Foi terrível para mim que era franzino e com muito pouca idade, mas mesmo assim tentei de todas as maneiras enfrentar as dificuldades e os pernilongos e mais as doenças tropicais. Fui internado na cidade de Cáceres e nessas alturas gastei quase todo o dinheiro ganho no trabalho na mata. Ainda me restou alguns trapos de roupa uma gaita e um pandeiro no que eu era mestre, "tocava muito bem a gaita e acompanhava ao mesmo tempo com o pandeiro" chegou o dia da queimada, quase morremos todos intoxicados com a fumaça que durou pelo menos três dias. Como a principal tarefa estava pronta foi hora de o pessoal retornar para suas casas. A condução pra volta era um caminhão do s.r. Ermínio Mapelli que cobrava um preço bastante alto pela passagem. Como eu já não tinha dinheiro ele aceitou como pagamento até Jataí a Gaita e o Pandeiro. Na vinda se parava nos bulichos (pequenas vendas) então os viajantes se fartavam com as iguarias que encontravam e enquanto isso eu ia atrás do caminhão chorar de fome, até que no terceiro dia um s.r. de idade avançada que ia retornar a sua terra natal que era na Bahia percebeu que eu estava passando fome e com voz firme chegou em mim e disse: não faça isso com baiano velho não! Estou indo pra casa pra morrer! Venha, coma a vontade que baiano velho paga. e assim foi até chegar em Jataí sendo que quando fui descer ele fez questão de me deixar dinheiro suficiente para pagar uma pensão para uns quinze dias. Desci do caminhão e logo a minha frente vi um pobre botequim no qual adentrei e perguntei a dona onde poderia arruma uma pensão por algum tempo. A dona prontamente se ofereceu para me fornecer alimentação cama e roupa lavada. Em seguida fui a uma máquina de café e trabalhei ali por algum tempo até que surgiu um emprego que ganhava mais com um pedreiro chamado de turco onde fiquei trabalhando por uns tempos e continuei hospedado na mesma pensão que me acolhera de início. O banho agente tomava num banheiro público que tinha perto de casa, era uma parede que se erguia e tinha vários canos d'agua e a água jorrava de uma fonte do local. Estava tudo bem, mas um parente da casa chamado goiano chegou todo entusiasmado dizendo que ia para o garimpo do invernadinha e quem quisesse ir com ele era só se aprontar que sairíamos em breve. Então saímos em direção ao garimpo goiano a mulher e uma filha com problemas mentais o sogro e a sogra e um sobrinho com a mulher, esses eram os futuros garimpeiros do invernadinha Na época saímos da cidade eu em companhia dessa família que conhecia o local que teria sido uma grande mancha de diamantes, tudo indica que esse local seria de 40 a 50 quilômetros rumo a Caiapônia, e que depois de chegar na venda do sr.Geraldo abastecia e entrava as direita em direção ao rio invernadinha. No dia em que chegamos na venda do s.r. Geraldo o tempo não estava propicio para a decida, então ficamos hospedados em um paiol de milho eu mais dois casais e um S.r. com certa idade que inclusive era avô de um e sogro de outro dos integrantes que se dirigiam para o garimpo. Mas tivemos uma surpresa no segundo dia que estávamos a espera da partida eis que o sr. mais idoso teve um infarto fulminante e faleceu nos meus braços. Isso devia ser mais ou menos 18,00h estava em uma tarde chuvosa e o falecido tinha outro filho na cidade de Jataí e como fazer para avisá-lo não se conseguia nenhum voluntário para ir a uma distância tão longa a pé, com risco de ser abordado por animais perigosos que lá existiam. Criei coragem e me ofereci para a difícil tarefa e saí estrada a fora numa escuridão total chuva torrencial e apenas os relâmpagos iluminavam a estrada, que, diziam um percurso de sete léguas (mais ou menos 42k). Já com o dia amanhecendo encontrei uma serraria cujas máquinas eram movidas por uma caldeira. Foi maravilhoso, tirei parte das roupas encharcadas e coloquei em cima da caldeira e logo começaram a sair fumaça e em pouco tempo estava seca. Depois de algum tempo o dia começava a clarear então saiu o dono da serraria de sua casa que ficava a alguns metros dali, gritei a ele dizendo que era de paz, e o senhor me atendeu com presteza. Ao ouvir minha história disse: aguarde só mais uns instantes que irei de caminhão para Jataí e levo você. Chegando em Jataí fui avisar o filho do falecido, que logo correu atrás de alguma condução que pudesse levá-lo até o local onde estava o falecido. Não tinha dinheiro para pagar o transporte e com toda a pressa do mundo conseguiu vender uma máquina de costura resolvendo o problema e então seguimos viagem. Ao chegarmos na venda onde estava o corpo constatamos que um dos garimpeiros, genro do morto, o qual era muito habilidoso já havia confeccionado a roupa fúnebre e feito um caixão de varas o que causou admiração de todos pela perfeição. O enterro foi efetuado a uma distância de mais ou menos cem metros da venda, sem atestado de óbito nem nada, como se fazia na época. No dia seguinte já tínhamos combinado com s.r. Geraldo da venda que seríamos meia praça no garimpo. obs: meia praça é o garimpeiro que trabalho no garimpo e o fornecedor fornece as ferramentas comuns e a alimentação básica ao garimpeiro, sendo toda a produção de diamantes divididas com o fornecedor. Chegamos no garimpo e começamos a trabalhar no monchão e também no leito do rio. Conseguíamos alguns xibios (pequenos diamantes) e a alimentação tinha que ser racionada ao extremo, pois, à distância para o reabastecimento era muito grande e então praticamente passávamos fome. Para completar a alimentação pescávamos bagres e traíras e uma comida das mais nutritivas era a do coco buriti, que se enterrava o coco na lama até que ele soltasse a casca depois adicionava farinha e açúcar e estava pronta a famosa sebereba. Algum tempo depois meu companheiro de garimpo resolveu voltar para a cidade então fui para uma casa nas imediações e passei a dar aula para as pessoas da família e alguns vizinhos. Voltando no tempo, quando vivi em jataí comentei com a dona da pensão que eu tinha família no estado de São Paulo então para minha surpresa ela havia conseguido descobrir o endereço da minha família e escreveu uma carta aos meus pais. Eu estava despreocupado na venda do meu ex-fornecedor, quando de repente entrou um senhor bem vestido e dirigindo se a mim disse: oi meu filho! Você não me conhece mais? Foi uma emoção violenta, as lágrimas fluíam dos meus olhos! Não tinha voz e aos poucos fui me inteirando da nova situação. Meu pai me disse que minha mãe estava doente, e precisava de mim, então resolvi abandonar tudo e voltar. Depois da volta comecei de novo minha vida, o que não deixa de ser uma linda história. Postado por Bloggastaldi @ 12:07 0 Comentários