quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

UM POUCO MAIS DE INQUISIÇÃO

A Santa Histeria (parte 6) | Imprimir |

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Existem histórias de cidades onde, após a visita do Sagrado Tribunal, poucas pessoas restaram para repovoá-la. Algumas transformaram-se em ruínas e foram abandonadas pelos poucos sobreviventes, pois haviam se tornado cenário de morte e horrores indescritíveis.

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Em Trier, na Alemanha, eram tantas as acusações que vários tribunais tiveram que se deslocar para a cidade. No período de três anos, cerca de 6500 pessoas foram mortas acusadas de bruxaria. Uma mulher, enquanto preparavam sua pira, começou a gritar os nomes de outros bruxos da cidade. Nomeou mais de cem pessoas, inclusive a mulher que a havia denunciado e todas as suas filhas. Duas crianças, filhas de uma temerosa mulher cristã, identificaram, sozinhas, mais de cinqüenta bruxas. No vilarejo vizinho, Treveris, apenas uma mulher permaneceu com vida.

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As aldeias que ficavam próximas a Bèziers, na França, um dos maiores alvos da inquisição por abrigar diversos cátaros, fugiam para as florestas e montanhas, pois ser pobre, naqueles tempos, também era suspeito. Em Toulouse, também na França, o povo se rebelou contra as injustiças praticadas e foi pedir clemência ao conde da província, Guillaume Pelhisson, também inquisidor. Ao procurar o tribunal e expor seus temores de uma revolta, Pelhisson foi abrandado pelo cardeal da região, que lhe assegurou que não haveria revolta. Quinze dias depois, um exército de mil homens chegou à cidade, queimando casas e matando gratuitamente todos que encontrava pela frente.

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No dia 24 de agosto de 1572, teve início aquele que seria considerado um dos maiores massacres da história da igreja. Temendo um golpe de estado por parte dos protestantes, a rainha francesa Catarina de Médici, contrariando o Tratado de Paz de Saint-Germain, uniu-se aos principais líderes religiosos da França e planejou o evento que ficaria conhecido como ‘A Noite de São Bartolomeu’. Naquela noite, cerca de três mil líderes protestantes foram retirados de suas casas e degolados em praça pública, dando início à chacina que se estenderia até outubro. Acredita-se que de 70 a 100 mil pessoas tenham sido mortas nos massacres. Cadáveres em decomposição eram encontrados nos rios franceses até seis meses depois. O papa Gregório XIII, em comemoração ao massacre, ordenou que os sinos de Roma ressoassem por um dia inteiro de graças e encarregou o pintor Giorgio Vasari de pintar um mural celebrando o evento. Trezentos anos depois, o escritor Alexandre Dumas imortalizaria a Noite de São Bartolomeu em seu romance ‘La Reine Margot’. Uma medalha cunhada também em comemoração ao massacre pode ser vista no famoso Museu do Louvre.

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O único crédito dado às testemunhas vinha do discernimento dos próprios inquisidores. Cartas anônimas, relatos isolados, fofoca, testemunhos oculares, tudo servia como estopim para o julgamento. Aqueles acusados de crimes menores, como bigamia, heresia ou por estender toalhas limpas na janela, eram submetidos a interrogatórios extensos e obrigados a reconciliar-se com a Igreja. Ao admitir sua culpa, recebiam chicotadas ou argolas de ferro no pescoço, tinham suas casas queimadas e podiam ser condenados a vagar até que as coleiras presas ao pescoço enferrujassem e caíssem ou a servir como escravos para os próprios inquisidores.

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Os advogados de defesa eram nomeados pela própria inquisição e convenciam os réus a confessar seus crimes. Muitos, inocentes das acusações, teimavam em declarar sua inocência, mas eram condenados de qualquer forma. Se, antes de queimar, o condenado implorasse para morrer na lei de Cristo, era primeiro chicoteado até a morte e depois queimado.

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Em seu livro ‘Witchcraft’, o pesquisador estadunidense Justine Glass afirma que cerca de nove milhões de pessoas foram mortas nos séculos da inquisição. Segundo ele “estas pessoas não ofenderam a igreja, não fizeram caricaturas de Cristo, não desonraram os papas nem praticaram qualquer tipo de delito injurioso. Seu único pecado foi tão somente nascer”.

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Verdadeiros conspiradores da igreja, só os inquisidores estavam livres do terror das acusações. Talvez esta tenha sido a profissão mais segura e gratificante do obscurantismo. E para exercê-la não havia necessidade de grandes atributos intelectuais. Bastava ter as doses certas de sadismo, inclemência e... desumanidade.

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